3- Coração à Deriva

J
éssica estava ansiosa pela volta às aulas, já fazia um bom tempo que não via Gabriel. Ela não compreendia o porquê de não conseguir tirá-lo de seus pensamentos, estava reluta em admitir que o amava, mas o episódio com Bruno e Morcegão trazia à tona a imagem do altruísmo refletido no rosto de Gabriel, isso sem dúvidas lhe fazia transpor outros pensamentos.
Os alunos estavam reunidos no grande pátio central da E.E. Professora Carmelina Rocha, esse era um procedimento já conhecido dos estudantes, ficavam lá por algum tempo até que de cima do palco de concreto fossem lhes chamada a atenção. Todo ano a banda formada por alunos do colégio fazia as boas-vindas, o som que rolava era pop rock nacional, a música era agradável embora os músicos não tivessem grande atenção do público, o momento era de reencontros, mais que aprazível e totalmente atípico, principalmente por se tratar de uma segunda-feira, 06 de fevereiro de 2007.
Havia muita conversa, Jéssica olhava de um lado para outro e via as pessoas se abraçando, os garotos em especial faziam cumprimentos característicos de seus grupos, riam muito, outros faziam pose, era notório que alguns queriam causar uma impressão privilegiada, quem sabe subir um degrau na escada da popularidade estudantil, no entanto, seu olhar procurava por uma só pessoa.
― Oi Jéssica, está perdida?
― Oi Amanda! Respondeu com desânimo.
― Nossa, que tristeza é essa? E por que parece que está no mundo da Lua?
― É... Estava meio distraída mesmo. Será que isso aqui vai demorar muito? Estou começando a ficar entediada.
― Entediada? Do quê? Não fizemos nada! ― Amanda sorriu por um instante e logo em seguida falou de modo surpreso e compassado.
Meeeu Deeeeus do céeeu! Olha quem chegou! É um anjo fugido do paraíso? Me segura, me segura porque acho que vou desmaiar!
― Credo Amanda, sua exagerada, não precisa de tudo isso não! E afinal de contas, quem chegou? Perguntou Jéssica desconfiada.
― É o Gabriel, nossa ele está um gato! Disse Amanda enquanto se ajeitava passando as mãos em seus cabelos loiros e ondulados.

Jéssica virou-se na direção para onde Amanda olhava, sentiu-se paralisada, era Gabriel. Inclinou levemente a cabeça sobre o ombro esquerdo, seus cabelos lisos caíram sobre parte de seu rosto, levou a mão direita até a testa, fez um movimento lateral puxando as mechas para atrás da orelha, desobstruiu sua visão, sorriu.  De longe Gabriel a percebeu e acenou. Sentiu seu coração acelerar. Ele caminhava em sua direção, ela, porém, permanecia estática. Em pensamento cogitava: O que vai acontecer? O que eu digo a ele? Será que o abraço? Gabriel já estava a quatro metros de sua posição, foi quando Amanda tomou a frente e se lançou sobre ele dando-lhe um forte abraço. Gabriel correspondeu, girou Amanda no ar e a colocou de volta ao chão. Rapidamente procurou por Jéssica com o olhar, mas não mais a viu, pelo menos naquele dia.
A música parou ao final de uma melodia menos agitada, o diretor Rocha tomou o microfone, saudou os alunos e iniciou um curto discurso de boas-vindas a mais um ano letivo. O discurso reduzido agradou os alunos que gritaram, assoviaram e o aplaudiram. Na sequência a professora Vera que lecionava Literatura tomou a palavra e passou a chamar os alunos, nome a nome orientando-os qual seria sua turma e para qual sala deveriam se dirigir.
Quando Gabriel foi chamado, gritos eufóricos de uma parte das garotas do colégio encheram o ambiente, muitos de seus amigos também fizeram barulho, isso chamou a atenção de outros alunos que passaram a conhecê-lo naquela manhã, até mesmo Vera admirou-se ao vê-lo, parecia mais crescido e maduro, além disso seu comportamento peculiar e espontâneo o diferenciou dos demais, enquanto outros faziam pose e desfilavam como se fossem receber um prêmio Oscar,  Gabriel caminhou normalmente passando pela proximidade do palco onde estavam o diretor e grande parte do professorado, parou diante deles, juntou as mãos em forma de oração na altura do peito e inclinou-se levemente cumprimentando-os, embora o cumprimento não fosse usual, naquele momento agradou aos que do palco o assistiam, pois demonstrou gratidão e submissão, e acabou por arrancar sorrisos de contentamento e aprovação por grande parte de seus mestres. Em contrapartida, despertou ciúmes em uma minoria de alunos mais antigos da escola.
Amanda comemorou duplamente quando seu nome foi chamado, primeiro por ter sido selecionada para estudar na mesma sala que Gabriel, segundo porque Jéssica estava em uma turma diferente a dela. Amanda percebia que Gabriel tinha uma queda por Jéssica, então decidiu tornar o encontro deles o mais difícil possível e ao mesmo tempo ganhar a sua atenção. Gabriel, entretanto, aparentava indiferença as duas, pelo menos, até aquele momento.
Naquela manhã Jéssica não ficou no colégio, nem voltou para casa. Caminhou durante uma hora enquanto repensava no ocorrido, se deu conta que a atitude que tomara demonstrou que sentia algo por Gabriel, ciúmes! Falava consigo mesma “Meu Deus, eu o amo!?”. Enquanto caminhava cogitava em qual seria sua próxima ação, como explicaria seu sumiço, quais desculpas daria, resolveu falar com sua tia Cecília, afinal já estava nas proximidades da casa dela.
Cecília estava cuidando de seu pequeno jardim e preocupada com o relógio, gostava muito de flores, mas estava se aproximando o horário em que Jair viria almoçar. Levantou-se, parou por um momento, admirou as flores. Distraiu-se enquanto as observava, filosofou para si mesma em baixo tom de voz, porém audível para quem estivesse a um perímetro aproximado de dois metros: “Toda a humanidade é como a relva, e toda a sua glória, como a flor da relva; a relva murcha e cai a sua flor”.
― Contudo, nem o rei Salomão, em todo o seu esplendor, vestiu-se como a beleza das flores, os lírios em especial. E se Deus reveste com tamanha beleza as flores que logo murcham, com que amor também não nos revestirá? Disse Jéssica emendando o pensamento de Cecília.
Embora aquela voz não fosse desconhecida, Cecília virou-se admirada e com a intenção de confirmar se quem falava era realmente quem imaginava que fosse. Suas suspeitas se confirmaram, era Jéssica, sua tão querida sobrinha. Sorridente disse:
― Belas citações, querida!
― Oi tia, tudo bem?
― Sim! Tudo bem! Que bom vê-la! O que a traz aqui e nesse horário? Não devia estar na escola? Disse Cecília já percebendo algo atípico.
― Talvez devesse, talvez não, não sei...
Cecília, assim como Clarice, era bastante perceptiva. Notando a insegurança de sua sobrinha a convidou para uma conversa mais íntima.
― Vamos entrar um pouco?! O que tinha pra fazer aqui já terminei.
― Claro que sim tia. No fundo era o que Jéssica mais desejava, uma boa conversa, desabafar.
Entraram. Jéssica sentou-se no sofá da sala, Cecília foi até a cozinha preparar um chá.
― Pronto! Tome devagar, cuidado que está quente!
― Obrigada tia.
― Está precisando conversar, não é? Me conta o que assola esse coraçãozinho de 16 anos.
― Quinze tia, faço dezesseis em outubro.
― Claro que sim! Sempre erro essas contas! Disse Cecília descontraindo.

Cecília se levantou de onde estava e sentou mais próxima de Jéssica, bem ao seu lado. Acariciou seus cabelos e pediu que falasse sobre o que a entristecia. Jéssica fechou os olhos pensativa, ponderou consigo mesma se abriria o jogo e falaria sobre seus surgentes sentimentos ou se inventaria uma desculpa qualquer e depois iria embora. Resolveu desafogar-se.
― Tia, por que as situações da vida não podem ser resolvidas como numa simples equação matemática? Assim eu isolaria a variável e desvendaria o seu valor! Mas até mesmo os enunciados dessas questões que outrora pareciam simples, agora tornam-se confusos, as vezes até incompreensíveis.
― Minha querida, não sou muito boa em matemática, na verdade nunca fui, mas posso te assegurar que a vida é composta de incontáveis incógnitas cujos valores não podem ser isolados, são dependentes uns dos outros.
― Como fazemos então? Como transpor os momentos difíceis? Por que os sentimentos muitas vezes doem, maltratam e nos desorientam?
― Adolescência, juventude, como é doce e confusa essa fase! Mas você ainda entenderá que a vida é preciosa demais para se desperdiçar e curta demais para ficarmos longe de quem amamos.
A frase de Cecília explodiu como uma bomba nos sentimentos de Jéssica, o efeito causado ainda não podia ser avaliado, todavia a desiquilibrou ainda mais, sentiu como se as peças do quebra-cabeças que desenhariam sua solução sentimental estivessem agora totalmente embaralhadas. Quem as colocariam no lugar?
― Tia, perdi o equilíbrio de minhas emoções! Não consigo disfarçar, hoje saí de perto de meus amigos sem aviso e sem rumo... vim parar aqui!
― O desequilíbrio e a desordem são os primeiros passos para construção de uma surpreendente conquista, a de si mesma.
Mesmo sem saber o que de fato ocorria, Cecília despertou em Jéssica algo novo, o desejo de protagonizar seus sentimentos. Era exímia nas ciências exatas, mas sentia-se em um barco à deriva no mar de suas emoções.
― Quer me contar o que inquieta seu coração? Perguntou Cecília.
― Tia, não sei nem como explicar, está tudo confuso! Penso, repenso, não queria que fosse assim, mas é! Nossa, você não está entendendo nada, está?
― Na verdade não! Mas tenho um palpite. Esse sentimento tem um nome, não tem?
― Tem sim!
― E qual é? Ou melhor, quem é?
Jéssica hesitou, mas respondeu com sinceridade:
― Gabriel, o nome dele é Gabriel.
― Hum.... Entendo! Bem Jéssica, uma das histórias mais lindas que tive o prazer de conhecer é a de sua mãe e de seu pai. Nela nada foi banal, nenhum momento foi perdido, mesmo nos mais difíceis eles sabiam superar juntos. O amor, o verdadeiro amor é como pedra bruta que provado pelo fogo se transforma em pedra preciosa.
Houve um pequeno momento de silêncio, um silêncio reflexivo. Cecília retomou:
― Quero te dar um presente.
Cecília levantou-se e foi até o quarto. Pegou um álbum de fotos antigas, extraiu uma delas, voltou a sala e deu para Jéssica. Com brilho ímpar em seus olhos Jéssica sorriu enquanto admirava um momento único e indescritível.
― Nossa! Sou eu junto com mamãe e papai?
― Sim, é você! Tinha apenas alguns dias de vida ainda!
― Meus Deus! Como estavam felizes nessa foto! Quem a tirou? Foi você tia?
― Sim, fui eu! Disse com orgulho.

A admiração de Cecília pela irmã era algo notório em suas palavras, enquanto relatava para sua sobrinha os diversos momentos que passaram juntas durante a vida, fossem felizes ou tristes, Cecília sabiamente exaltava a forma como Clarice lidava com cada um deles.  Jéssica começava a entender o poder que existia em ser um bom modelo, aprendia que dar o exemplo era a maneira mais eficaz de se ensinar algo e de torná-lo duradouro.
Enquanto Jéssica olhava para fotografia em suas mãos e meditava sobre as histórias recém absorvidas Cecília completou:
― Guarde-a e lembre-se sempre que olhar para essa foto, esse momento só existiu porque eles souberam vencer as intempéries da vida, para eles não importavam bens materiais, permaneceram juntos acima das circunstâncias. Você é o prêmio deles, honre-os com a sua vida.
― O que devo fazer tia, sabe... com meu coração?
― Você ainda é muito jovem e aprenderá que seu coração é mais enganoso que qualquer outra coisa, procure conhecê-lo, não seja precipitada, comece por suas emoções e vontades e cuide para que elas não a desvie do caminho da retidão.
Jéssica meditou novamente. Em seguida voltou ao epicentro do maremoto de seus sentimentos.
― E quanto a Gabriel, o que eu faço?
― Ele sabe de seus sentimentos por ele? Perguntou Cecília.
― Acho que não.
― Então, não pode cobrá-lo do que ele não conhece! Foi taxativa.
― Devo dizer que o amo ou coisa parecida? É isso que quer me dizer, tia? Devo me declarar?
― Não! Não! Como disse, não seja precipitada. As coisas precisam acontecer no tempo correto. Permita-o lhe conhecer, esse é o primeiro passo. Mas antes de tudo, vá para casa e conte tudo para sua mãe. Ela é exemplo para mim e para seu tio. E por falar nele, me dê licença, tenho que terminar o almoço, o Jair chega já, já. Mas pode ficar por aqui o quanto quiser!
― Obrigada por tudo tia, mas vou para casa agora, tenho muita informação para digerir.
― Venha quando quiser querida, será sempre bem-vinda, você sabe disso!
― Obrigada de novo tia! Vou pensar em tudo que você me disse, eu prometo!

Se despediram. Jéssica saiu pensativa, a exemplo de sua mãe queria escrever no livro de sua vida uma bela história, mas ainda não sabia exatamente por onde começá-la, afinal, Gabriel não era exatamente o modelo de rapaz que tinha em mente, entretanto, já não conseguia imaginar-se sem ele.

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