1- O Palco da Vida

10
de outubro de 1991. Naquela quinta-feira, manhã de primavera o sol brilhou mais forte nos olhos de Clarice, eram raios de intensa emoção, indescritíveis! Edgar estava sem fala enquanto segurava em seus braços a pequenina Jéssica que acabara de nascer. Seus olhos lacrimejavam, sua boca tremulava, tentava conter algo que jamais havia sentido, que jamais imaginara! Naquele quarto, naquele momento, não haviam palavras, apenas sentimentos. Clarice fitava-lhe os olhos, via na pupila do pai a imagem da filha, sorriam o sorriso mais afetuoso de suas vidas. Aquela atmosfera os faziam desejar o infinito.
Cecília, irmã de Clarice, posicionou-se na porta do quarto apoiando o ombro esquerdo no portal. Edgar e sua esposa viraram-se para ver quem havia chegado, nesse instante um flash!
― Pronto! Momento perfeito registrado! Disse Cecília visualmente comovida.
Edgar era homem trabalhador e honesto, nunca jamais pairou dúvidas sobre seu caráter. Começou a trabalhar muito jovem, as situações da vida o levaram a isso. Era de família desprivilegiada e por vezes quase lhes faltaram o pão. Todavia, nunca se rendera aos obstáculos, muito menos tomou caminhos que o desonrasse. Não tinha uma profissão definida, ao longo da vida realizou diversas atividades para garantir o seu sustento e o de sua família. Conheceu Clarice quando tinha vinte e dois anos, ela vinte, se casaram três anos depois.
Clarice vivia situação similar à de Edgar, quando se casaram não tinham praticamente nada, moravam de aluguel e mantinham firmes o sonho de vencer na vida e de viverem dentro das possibilidades uma vida feliz! Clarice tinha vinte e nove anos quando Jéssica nasceu, seis anos depois o casal conseguiu realizar o sonho de possuir a casa própria, fruto de muito trabalho e economia, naquele ano o aniversário de Jéssica foi duplamente comemorado.
Jéssica cresceu com os exemplos práticos de luta e determinação de seus pais, também sobre afagos e proteção. Quase todas as noites Clarice contava-lhe histórias com belas lições de vida, muitas delas faziam referência a ela mesma e ao marido.
― Mamãe, hoje você me conta como você conheceu o papai!?
Clarice estava sentada em uma cadeira ao lado da cama de sua filha. Olhou-a nos olhos e sorriu. Enquanto ajeitava o cobertor que a envolvia disse:
― Outra vez me pedindo essa?
― Mas você nunca me conta! Quando contar paro de pedir! Eu prometo. Falou de forma meiga e única. Clarice se rendeu.
Jéssica adorava as histórias que sua mãe contava, elas eram cheias de emoção e aprendizado, algumas já havia ouvido diversas vezes, mas a história de como seus pais se conheceram, essa era inédita, e de todas, a mais esperada.
― Tudo bem! Você me convenceu, hoje eu conto!
Um sorriso largo e eufórico tomou conta da garota, fez silêncio, mas seus olhos gritavam, como que dizendo, conte-me logo! Conte-me tudo!
― Pois bem, essa é minha história favorita! Vamos lá.... Seu pai era jovem, forte e bonito. Chamava a atenção por onde passava. Naquela época ele trabalhava em uma firma de materiais para construção, carregava pesados sacos de cimento e outros materiais. Acho que por isso tinha todos aqueles músculos. Sorriu delicadamente e voltou a falar:
― Quase todos os dias ele passava em frente à minha casa com outros colegas de trabalho, sempre no final da tarde. Eu disfarçava, ia para a janela e admirava aquele jovem trabalhador.
― Ele percebia que você o observava? Perguntou a filha com curiosidade adolescente.
― No começo não, mas depois de alguns dias acredito que sim. Daí ele fazia poses e esforçava-se um bocado para ficar em evidência entre seus amigos. Ah... ele sempre foi lindo... e sempre me fez sorrir!
Clarice contava sua história com muita comoção, eram palavras verdadeiras e prendiam a atenção de sua filha que ansiosa pedia para que continuasse.
― Um dia, naquele horário costumeiro, corri para janela, esperei, mas não o vi, os amigos dele passaram e pararam um pouco adiante, achei estranho, nunca haviam parado por ali, parecia até que estavam me observando. Foi quando eu me estiquei sobre a janela me projetando parcialmente para fora, meus braços estendidos sustentavam meu corpo e minhas mãos permaneciam firmes próximas a minha cintura e sobre a janela garantindo meu apoio. Queria ver se ele vinha ao longe. Me perguntava: Por que seus amigos estavam parados? Será que o esperavam? Estava muito curiosa naquele momento e confesso, se não o visse, aquele final de dia não seria tão feliz.
― Nossa mamãe, você já estava apaixonada! Não estava?
― Acho que sim.... Sim, eu estava! Se entreolharam e sorriram juntas!
Clarice contava a sua história com um sorriso ímpar, viajava em suas lembranças. Fez uma pausa em sua fala enquanto refazia em sua memória os momentos subsequentes aos de sua última fala. Mas Jéssica um tanto quanto aflita, perguntou:
― E aí mamãe, o que aconteceu? Ele apareceu?
Clarice continuou:
― Eu não conseguia o ver chegar, estava ansiosa, quando tentei me esticar mais um pouquinho para ver melhor a rua... vi surgir lentamente uma rosa em minha frente. Ele apareceu em minha janela. Perdi o chão! Mudei de cor! Sorri timidamente e aceitei a rosa. Em seguida me perguntou: “O que é mais forte que o amor?” Emudeci. Ele olhou-me nos olhos, afastou-se devagar e foi embora.
― Nossa! Que romântico. E depois? E depois?
― Depois disso? Não consegui parar de pensar naquela pergunta! A resposta parecia tão óbvia: nada, nada é mais forte que o amor! Mas com o tempo entendi o porquê de seu pai ter me feito aquela pergunta. Nosso romance tinha tudo para dar errado, a começar por nossas condições financeiras. Acredite minha filha, a falta de dinheiro destrói muitos relacionamentos. Por outro lado, dinheiro nenhum do mundo compraria aquela rosa, entende?
― Sim! Bem, acho que entendo!
Clarice tentou explicar melhor:
― Seu pai estava me dizendo, mesmo sem palavras, que, se eu realmente quisesse viver aquele relacionamento com ele passaríamos por muitas dificuldades. Entretanto, se ficássemos juntos seriamos verdadeiros vencedores, verdadeiramente felizes, pois o que poderia ser mais forte que o amor?
― Nada! Respondeu Jéssica com entendimento mais profundo sobre o que sua mãe lhe falava.
Clarice admirava a inteligência de sua filha. Retomou do ponto em que havia parado:
― Alguns dias depois começamos a nos encontrar, ele me pediu em namoro e hoje estamos aqui, nós três! Sabe Jéssica, minha menina, você é a maior prova de que nada, absolutamente nada pode ser mais forte que o amor!
― Mamãe, em nenhum momento você teve medo de enfrentar o que passariam juntos?
― Filhinha, no amor não há medo, pelo contrário o amor expulsa o medo. A vida é curta demais para ficar longe de quem amamos.
Quanto mais Jéssica crescia, mais admirava seus pais e seus exemplos. Herdou do pai a coragem e determinação, da mãe a sinceridade e o amor à vida e de ambos o romantismo e a honestidade. Aos poucos começa a pisar no palco da vida para protagonizar sua própria história.

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