6- Lembranças

O
s raios de sol atravessavam a janela cujas cortinas a cobriam parcialmente. O brilho era suficiente para aquecer e iluminar aquele quarto modesto mobilhado por uma cama, um criado mudo e um pequeno guarda-roupas. Na parede apenas uma fotografia em preto e branco ligeiramente amarelada, nela um homem sério e de bigodes, uma jovem senhora sorridente e uma menina cuja idade aparentava oito anos, todos com roupas típicas de um tempo distante. Dona Isaura abria os olhos mais uma vez para a realidade da qual não podia fugir, tudo aquilo tinha sabor de saudade e os dias eram mais longos que o desejado.
Levantava e punha-se a observar a janela com a cortina vermelha esbranquiçada pelo sol, três passos da cama em direção aos feixes de luz e sua face era totalmente desvendada, fechava os olhos por um instante, respirava lenta e profundamente, de fato estava ali e isso não poderia ser mudado. Observava novamente as cortinas, com as duas mãos as ajeitavam novamente, todavia, aparentemente, permaneciam como antes. Deixava-as sempre naquela mesma posição, isso a fazia acordar religiosamente no mesmo horário, também a lembrava dos tempos em que a janela de seu quarto dava para um campo gramado com árvores em segundo plano sob as quais surgiam um novo amanhecer.
Diferente dos tempos passados, os dias atuais se assemelhavam, a rotina não mudava. Isaura acordava, caminhava até a janela, voltava, arrumava a cama, parava por um momento e observava a fotografia da parede. Aquele fragmento de rotina, aparentemente automático, instintivo, era na verdade um pequeno reflexo de uma vida que levara a tempos. Já fazia muitos anos que residia naquele lugar e há poucos dias havia recobrado a memória de seu próprio nome. Lembrou-se que se chamava Isaura, apenas Isaura, sem sobrenome, mas isso já era um grande avanço. Suas recordações voltavam em pequenos flashes, porém todos fragmentados. Essas recordações, tais como pequenos vídeos, transcorriam em sua mente em câmera lenta, isso era tudo o que lhe restava, apenas lembranças. O próximo passo era tentar ordená-las, montá-las como se fossem um quebra-cabeças. Árdua missão.
As atividades eram poucas, Isaura levantava cedo, tomava um café da manhã coletivo, algumas vezes assistia televisão, na maioria preferia caminhar pela generosa área de sol cujo caminho de largura aproximada de três metros em forma oval e ladrilhado por pedras justapostas era bastante atrativo e espairecedor.
O interior daquela pista apropriada para o exercício da caminhada era gramado e decorado com algumas mesas e bancos de madeira, prontas para um jogo de dominó ou cartas, ou simplesmente para bater um papo. Ao exterior daquele belo caminho oval haviam árvores plantadas de modo equidistantes contornando a passarela, entre duas árvores mais um banco alongado, de tamanho confortável para comportar quatro pessoas adultas, todos também de madeira, virados para o caminho ladrilhado, de modo que, ao assentar em qualquer um deles a vista daria para todo caminho oval, bem como para as mesas internas. Um pouco mais externo haviam outras árvores, algumas delas frutíferas.
A alvorada era estonteante e provocava profundas reflexões. Todavia, aquela bela vista em nada empolgava Isaura, sentia que a vaidade da vida havia desvanecido tal como seu próprio sorriso que jamais se parecera com o da fotografia na parede. Seu parceiro já não apareceria ao longe durante o crepúsculo projetando uma extensa sombra como se apontasse o caminho para casa. Naqueles dias Isaura caminhava até a varanda segurando Eleonora pela mão, paravam diante do parapeito de madeira rústica e observavam o sol alaranjado se escondendo atrás de um caminho, mas antes que se pusesse completamente desvendava a figura de um homem caminhando em passos firmes ao encontro de sua família. Os lábios de ambas curvavam, se entreolhavam, a filha esperava a autorização da mãe, eram olhares afetuosos que entendiam o valor daqueles encontros diários, Isaura assentia com a cabeça, sem palavras, então Eleonora soltava a mão de sua mãe e corria para os braços do pai. Na sequência, Isaura descia os três degraus da varanda, pisava descalça no gramado e aguardava a chegada de seu marido. Aluísio se aproximava sério, entretanto, quando seu olhar encontrava o de sua amada seu semblante dava lugar a um sorriso único, descia de seu colo a pequena Eleonora e beijava singelamente os lábios de sua linda esposa. Contudo, essas recordações eram recobradas muitas vezes através de sonhos, o que deixava Isaura duvidosa se realmente já tivessem um dia ocorrido.
Isaura! Isaura! ― Dizia com muito jeito a moça vestida de branco.
― Tudo bem com a Senhora? Parece que adormeceu aqui no banco do jardim. Vamos entrar, o clima está esfriando.
― Estou bem Janaína, estou bem! Obrigada.
― A Senhora cochilou um pouquinho. Sorriu.
― Não devia ter me acordado tão rápido, Eleonora ainda estava no colo de Aluísio e eu estava esperando por aquele beijo!
― Ãh... beijo?
Janaína ainda não havia percebido que Isaura falava sobre uma de suas lembranças novamente vivenciadas em um sonho, por isso lamentou ter sido acordada. Retomou a conversa:
― Sabe minha querida a saudade é algo que machuca um bocado e os sonhos.... Ah! Eles nos dão esperança. Sejam quais forem os dissabores da vida, são os sonhos que nos dão esperança e nos fortalecem para as batalhas diárias. Em meu caso, até mesmo a batalha mais trivial, encontrar motivos para permanecer viva!
As palavras de Isaura eram cheias de profundidade e mistério, fora dos padrões comumente encontrados pelos residentes dali. Janaína sentia algo especial naquela senhorinha e torcia fortemente por um melhor desfecho em seu destino. Aproveitou a abertura dada por Isaura e emendou uma pergunta.
― Dona Isaura, quem são Eleonora e Aluísio?

Ela já imaginava que aquela quieta senhora se referia a seus familiares, às pessoas da foto da parede, porém aproveitava o momento para tentar criar um vínculo de confiança e amizade entre elas.
Isaura não respondeu, levantou-se com a ajuda de Janaína, uma enfermeira que fazia trabalhos voluntários naquela casa de idosos, estava cada dia mais calada, não que não pudesse falar, mas porque assim tinha decidido. Seu semblante denunciava muito mais que uma idade bastante avançada, era o retrato da dor do abandono, não fora abandonada por familiares, mas pelo destino. Entretanto, aquele pequeno cochilo a fizera reviver uma de suas mais belas recordações, isso a impulsionou a balbuciar algumas frases. Todavia, calou-se novamente.
A vida de Isaura era um mistério para a Casa de Repouso Bela Alvorada, ela havia sido deixada lá por alguém que não quis se identificar e só foi aceita devido a uma generosa contribuição financeira daquele enigmático senhor. Não puderam recusar já que as dificuldades em manter a casa funcionando adequadamente sempre foram enormes.  Além disso, ele deixou um ano de estadia paga adiantado e durante alguns anos seguintes, a instituição recebia mês a mês um envelope lacrado e sem remetente com o valor correspondente as mensalidades praticadas ali, às vezes até um pouco mais. Por fim os envelopes cessaram, porém, a Bela Alvorada não desamparou Isaura.
Os gestores da instituição procuraram de todos os modos possíveis identificar a origem daquela senhorinha ou familiares, sem sucesso. Isaura não portava documentos e de nada se lembrava de seu passado, nem mesmo seu nome. Com o tempo, se sentindo protegida e bem cuidada começou a ter flashes de memória mais consistentes, na maioria das vezes lembrava de episódios envolvendo seu marido e sua filha. Por vezes, essas recordações resultavam em lágrimas reprimidas e o desejo de não ter que acordar para a realidade que a maltratava sutil e diariamente, por isso se calava.
― Dona Isaura anime-se, amanhã é dia de visitas.
― Hum... sei! Mas não espero por ninguém...
― Nunca se sabe que surpresas nos esperam o dia de amanhã! Não é verdade? Janaína tentou alegrá-la.
― Como você é gentil e otimista Janaína. Obrigada por tentar me animar! Agora entremos logo sua desajustada! Já estou sentindo uma friagem nas minhas engrenagens!
Janaína deu uma gargalhada, não esperava por uma rima piadista por parte de Isaura.
― Gosto de te ver assim, com bom humor! E até fez rimas!
― Já fui rapper minha jovem!
Janaína sorriu novamente e emendou:
― Mc Isaurinha!
― Chega dessa conversa fiada e me ajude entrar! Disse séria, mas sorriu no final.

Entraram, Isaura assentou-se em uma das muitas poltronas espalhadas pela grande sala usada geralmente para receber visitas. As poltronas eram todas diferentes umas das outras, claramente fruto de doações. Algumas atividades artesanais eram propostas, Isaura, porém nada queria fazer, era uma excelente pintora, mas sentia-se sem inspiração. Passou quase toda manhã observando os pássaros, os movimentos das folhas das árvores, as peculiaridades das plantas e a diversidade das flores, cogitou em pensamento, “costumava achar tudo isso muito mais belo, não perderam seu encanto, meus olhos que acinzentaram”.
Depois do almoço Isaura cochilou novamente, desta vez sonhou com um momento diferente. Em seu sonho era tarde de sábado, voltavam da cidade para o sítio, Aluísio dirigia um fusca bege, se viu orgulhosa de seu marido, no banco de trás estava Eleonora e as compras de mantimentos que fizeram. Aluísio dirigia com expressão séria, mas em certo momento olhou para sua esposa e sorriu, nesse instante Isaura acordou e chamou por Janaína seguidamente até que fosse atendida.
Janaína! Janaína! Oh meu Deus, Janaína!
― Tudo bem! Está tudo bem, já estou aqui! Disse de forma confortante.
― Meu marido e minha filha! Você havia me perguntado quem eram Aluísio e Eleonora, pois bem, eu me lembro com clareza agora! Aluísio era meu marido e Eleonora era minha filha e tínhamos um fusca bege! Não me lembro de muita coisa, nem meu sobrenome, nem como cheguei aqui, mas lembro que os amava muito, e que éramos uma família feliz.
Isaura chorou abruptamente nos braços de Janaína, ela nunca havia contado história nenhuma de sua vida, mas aquelas últimas lembranças abriram janelas de sentimentos inexprimíveis.
Sentaram-se juntas em um sofá maior, Janaína decidiu dedicar sua atenção especialmente para Isaura, ouviu tudo o que aquela senhorinha resolveu contar. Isaura relatou que duas semanas atrás havia recordado de um episódio em que Aluísio segurava apreensivo uma mala e pedia que ela e a filha entrassem no carro, mas suas lembranças eram muito fragmentadas, quando cessaram as palavras Isaura apoiou seu corpo no de sua confidente, reclinou a cabeça sobre seu ombro, com a mão direita segurou com firmeza a mão esquerda de Janaína, ficaram lá, juntas, por um longo momento em silêncio, Isaura tentava administrar seus sentimentos enquanto Janaína se dava conta da fragilidade da vida.

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